sábado, 13 de junho de 2015

Fora de casa há um ano, 158 famílias esperam obra após tragédia em Natal


Deslizamentos de terra na Zona Leste aconteceram em 13 de junho de 2014.

Prefeitura ainda não concluiu obras de reconstrução da área.


Novo projeto inclui escadaria, rampa e paisagismo
(Foto: Felipe Gibson/G1 e Divulgação/Secom)

Sexta-feira, 13 de junho de 2014, data histórica em que Natal recebia seu primeiro jogo de Copa do Mundo. Enquanto as seleções do México e Camarões jogavam sob forte chuva na Arena das Dunas, um deslizamento de terra soterrava carros e dava início ao drama de centenas de pessoas entre Mãe Luíza, bairro periférico, e a praia de Areia Preta, área nobre da cidade.

Sem trégua no tempo chuvoso, o saldo dos dias seguintes foi de casas destruídas, condomínios de luxo interditados, famílias desabrigadas e uma cidade em estado de calamidade pública. Um ano depois da tragédia, a reconstrução da área destruída ainda não foi concluída e 158 famílias do bairro de Mãe Luíza continuam fora de casa.

A previsão da Secretaria de Obras Públicas e Infraestrutura (Semov) é que a obra termine até o fim de agosto. O novo projeto prevê uma nova escadaria com rampa de acessibilidade e área arborizada, diferente da estreita escadaria rodeada por terra e matagal que ocupava o local antes da tragédia. A demora para a proposta virar realidade é justificada pela Semov com as chuvas que ocasionaram novos deslizamentos na área e pela demora na liberação de recursos do Ministério das Cidades. As obras também pararam depois que um homem foi sugado por uma tubulação em março deste ano no bairro.

O secretário de Obras Públicas, Tomaz Neto, conta que o Município recebeu R$ 1,6 milhão dos R$ 7,5 milhões previstos para a obra definitiva. O titular da pasta mantém o otimismo pela liberação, mas não esconde certo receio. "Veio 30% no mês passado. Recebi do ministério que o resto do valor viria na segunda parcela. É necessário para termos poder de fogo e acelerar as obras. Sabemos dos problemas enfrentados pelo governo federal, mas aguardamos a liberação", ressalta.

Ao mesmo tempo em que a burocracia e o mau tempo atrapalhavam, os moradores desabrigados tiveram que se virar morando na casa de familiares e amigos, ou alugando imóveis. Alguns voltaram para suas casa em Mãe Luíza mesmo com a interdição. Como uma espécie de indenização pela tragédia, a Prefeitura de Natal paga há um ano um auxílio moradia de R$ 788 às famílias com casas interditadas pela Defesa Civil. Ao longo de um ano o valor soma R$ 1,7 milhão, segundo a Secrearia Municipal de Habitação. Há queixas de moradores sobre atrasos de até dez dias nos pagamentos.



A cozinheira Lucilene alugou imóvel perto da casa
interditada em Mãe Luíza (Foto: Felipe Gibson/G1)

Mudanças na rotina

A cozinheira Luciene Maria de Araújo, de 38 anos, estava no caminho de casa quando recebeu uma ligação da filha. "Mãe, está chovendo muito", dizia a menina. Quando chegou em casa, a Defesa Civil estava evacuando os imóveis próximos ao local do deslizamento. Entre eles, a casa da cozinheira, na parte mais baixa da Rua Guanabara, onde se originou a cratera que fez terra, casas e entulhos descerem encosta abaixo.

"Me disseram que todo mundo tinha que sair porque estava caindo tudo. Passamos a noite na igreja evangélica. De lá a gente foi para a casa de uma amiga e depois alugamos a casa que moramos até hoje", afirma. A cozinheira mora com duas filhas em uma pequena casa na parte alta da Rua Guanabara, quase ao lado do seu imóvel interditado. "É algo que vivemos porque temos que viver", diz.


Desempregada, Luciana voltou para o imóvel
interditado em Mãe Luíza (Foto: Felipe Gibson/G1)

Assim como Luciene, outros moradores procuram estar sempre por perto dos imóveis interditados, principalmente por causa dos furtos que aconteceram após os deslizamentos. "Se abandonarmos tudo, o povo vem e rouba. Vi gente que teve até portão e janelas roubados", relata a empregada doméstica Luciana do Nascimento, de 43 anos, que voltou para sua casa interditada em Mãe Luíza em março.

Luciana explica que estava em uma casa alugada na Zona Norte e decidiu voltar para a Rua Guanabara porque perdeu o emprego. "Como o dinheiro do auxílio não sai certo, não tenho de onde tirar. A casa está sem água nem luz. Usamos gambiarras feitas com as casas dos outros", conta. A empregada doméstica mora com o marido. No dia da tragédia o casal estava em casa. "Saímos apenas com a roupa do corpo e não podíamos mais entrar em casa", lembra.

Sineide atravessa canteiro de obras todos os dias
para ver como está sua casa em Mãe Luíza
(Foto: Felipe Gibson/G1)

A obra passou a fazer parte da rotina dos moradores. Por muito tempo a área onde aconteceu o deslizamento esteve protegia apenas por uma lona e muitas pessoas se aventuravam no local para atravessar a Rua Guanabara e até mesmo para descer até a Avenida Sylvio Pedroza, em Areia Preta. Neste ano tapumes A funcionária pública Maria de Sineide do Góis, de 62 anos, atravessa diariamente o canteiro de obras na Rua Guanabara para ver o estado de sua casa interditada.

A moradora está morando na parte de trás do imóvel, onde havia construído uma pequena casa que não teve a estrutura comprometida pelo deslizamentos. "Moro aqui desde 1959. Minha casa ficou rachada na frente e submersa. Só sobrou o piso. Só pude chegar perto de novo depois de 15 dias porque colocaram concreto embaixo. Mesmo assim ficava até a madrugada embaixo dos pés de castanhola olhando para evitar que bandidos levassem algo. Estamos vivendo um período crítico, mas tenho fé em Deus que vamos vencer", relata.

Deslizamento fez casas desabarem em Mãe Luíza
(Foto: Felipe Gibson/G1)

Novas casas
Das casas atingidas pelos deslizamentos, 26 foram arrastadas pela lama e desabaram em Mãe Luíza. Como o novo projeto não prevê a reconstrução, os proprietários ganharão novos imóveis, segundo a Secretaria de Habitação. OG1 ouviu o então secretário de Habitação do município, Homero Grec, no final de maio. No início de junho ele foi exonerado. Segundo as informações repassadas por ele, as 26 casas serão erguidas em um terreno no próprio bairro nos moldes do Minha Casa, Minha Vida.

"A comunidade não aceitou a construção fora de Mãe Luíza. Chegamos a um terreno na Avenida João XXIII, já perto da Via Costeira. Esperamos a regularização da área para iniciar o processo com o Ministério das Cidades e buscar o financiamento. O projeto está pronto. Cada casa custará R$ 61 mil e o valor global será de R$ 1,5 milhão", detalha Grec.

O projeto das novas casas está atualmente na fase de desapropriação do imóvel, processo que vem sendo tocado pela Procuradoria Geral do Município (PGM). O secretário acrescenta que o andamento só não foi mais acelerado por causa da demora para a definição do ministério por onde o processo transcorreria.


Carro foi engolido por cratera em junho de 2014
(Foto: Everaldo Costa/Inter TV Cabugi)

A Secretaria Municipal de Habitação também está responsável pela recuperação das casas que sofreram danos nos deslizamentos. "As casa que tiveram algum tipo de comprometimento serão recuperadas. Não é um programa de reforma nem ampliação. Faremos um levantamento e nos basearemos nos preços usados pela Aeronáutica. Até o final de julho esperamos estar com a empresa definida para fazer o trabalho", observa o então secretário.

Com a recuperação dos imóveis, Homero Grec espera conseguir a desinterdição das casas por parte da Defesa Civil. "Com isso o pagamento do auxílio-moradia ficaria limitado às 26 casas que caíram e que serão contempladas no Minha Casa, Minha Vida. Queremos ter essa situação até o fim do ano", conclui.

De acordo com o ex-secretário, a última parcela do beneficio será destinada no dia 15 de junho. Para não deixar os moradores afetados sem receber o benefício, a prefeitura enviará um novo projeto de lei à Câmara Municipal de Natal para dar continuidade aos pagamentos.

Obras
O Ministério da Integração Nacional chegou a publicar em dezembro uma autorização para a liberação dos R$ 7,5 milhões em três parcelas para as obras em Mãe Luíza, porém a verba não saiu e a prefeitura teve que se virar. "Sobraram recursos dos R$ 3,6 milhões liberados inicialmente para as obras emergenciais. Usamos para adiantar o projeto definitivo", revela o secretário de Obras.


Obras em andamento na Avenida Sylvio Pedroza
(Foto: Felipe Gibson/G1)

Com uma nova portaria publicada em abril pelo ministério e a liberação de 30% dos recursos, a obra voltou a ser tocada em "bom ritmo", conforme o secretário. "Tivemos problemas até aqui. A chuva foi o mais impactante porque tínhamos que refazer tudo. Foi um sufoco. Depois o atraso dos recursos quando tudo estava engatinhado. Por último veio o acidente com o rapaz sugado por uma tubulação e tudo foi paralisado novamente", lembra.

De acordo com a Semov, a macrodrenagem do projeto foi finalizada e na semana que vem serão conectados os tubos de escoamento até a Avenida Sylvio Pedroza. Ao mesmo tempo, está sendo executada a microdrenagem nas ruas Atalaia, Guanabara e Camaragibe, trabalho previsto para terminar em julho. Por último, será concluída a rampa, a escadaria e o paisagismo do local.


Área da Rua Guanabara foi cercada por tapumes para obra em Mãe Luíza 
(Foto: Felipe Gibson/G1)

Felipe GibsonDo G1 RN

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu Comentário será exibido em Breve