domingo, 14 de fevereiro de 2016

Sabem o garotinho que morreu afogado tentando chegar à ilha grega? Vejam o que aconteceu com a família






Dois cidadãos sírios foram a julgamento esta semana, na Turquia, acusados de serem os responsáveis pela trágica travessia de barco que naufragou no Mar Egeu em setembro de 2015, matando cinco refugiados, entre eles Aylan Kurdi, um menino de dois anos (as primeiras reportagens sobre o caso informavam que ele tinha 3 anos). As imagens do corpo de Aylan (ou Alan) jogado numa praia da Turquia tornaram-se um ícone do risco que muitos sírios se veem obrigados a correr para fugir da guerra que assola o seu país.

O pai do menino, Abdullah Kurdi, também era réu no caso, mas o juiz decidiu esta semana retirar a acusação contra ele. Os outros dois acusados, Muwafaka Alabash e Asem Alfrhad, se dizem inocentes e acusam Abdullah de ser o verdadeiro mentor da viagem. Essa versão da história surgiu um pouco depois do naufrágio em entrevistas de sobreviventes à imprensa internacional. Essas testemunhas disseram — e uma delas confirmou essa versão no tribunal turco — que Abdullah estava conduzindo o bote no momento em que este emborcou. Essa informação em si, porém, não basta para concluir que Abdullah fazia tráfico humano, pois é comum que os coiotes peçam a um dos refugiados para conduzir o barco. Na versão de Abdullah, ele e outros passageiros do bote tiveram que assumir o leme depois que os verdadeiros traficantes fugiram.

O fato é que ele perdeu a mulher e os dois filhos no naufrágio.

Anne Barnard, do jornal americano New York Times, entrevistou 20 integrantes da família Kurdi, incluindo tios e primos de Aylan, para reconstituir o que levou Abdullah a arriscar-se na travessia para a Europa e o que aconteceu depois. A reportagem de Barnard é útil para entender por que permanecer na Turquia, o primeiro destino da maioria dos refugiados, não é uma opção viável para muitos deslocados de guerra. Fugir para a Europa não é uma veleidade. É um ato de desespero.

Prova disso é que, apenas algumas semanas depois que a foto que mostrava Aylan de bruços na areia, com a água do mar lambendo o seu rosto morto, havia sido divulgada em todos os meios possíveis ao redor do mundo (também foi capa de VEJA), uma de suas tias, Hivrun, e quatro de seus primos aventuraram-se na mesma travessia. Desta vez, com êxito. Eles agora vivem na Alemanha com o marido e pai, que havia viajado antes.

Os Kurdi são originalmente de Kobani, uma cidade de maioria curda perto da fronteira com a Turquia, mas viviam há duas gerações na capital Damasco. O avô de Aylan era barbeiro, profissão também abraçada por Abdullah. Apesar de pertencerem à etnia curda, identificavam-se antes de tudo como sírios. A guerra mudou tudo. De repente, a questão étnica e religiosa passou a ser relevante. Alguns Kurdi passaram a ser perseguidos pela polícia, ora pelo simples fato de serem curdos, ora por alguma vaga desconfiança de que haviam participado dos protestos contra o regime. Quando a situação se tornou insustentável — dois primos adolescentes de Aylan foram interrogados e intimidados pela polícia depois de testemunhar um atentado suicida na capital, como se tivessem alguma coisa a ver com o ataque –, os Kurdi resolveram fugir para Kobani.

A cidade curda era, de início, segura. A maior dificuldade era sustentar a família, e Abdullah mudou-se sozinho para Istambul, na Turquia, para trabalhar. No refúgio em Kobani, sua mulher, Rihanna, deu à luz Aylan (seu irmão mais velho, Ghalib, também nasceu na cidade, mas na época a família ainda vivia em Damasco). Quando o grupo Estado Islâmico, uma cisão de um grupo jihadista ligado à rede terrorista Al Qaeda, surgiu Kobani foi tragado definitivamente pela violência da guerra. Dezoito integrantes da família Kurdi foram mortos.

Abdullah buscou Rihanna, Ghalib e Aylan para viver com ele em Istambul, mas só tinha dinheiro para alugar um apartamento longe do seu trabalho. Acabou ficando desempregado e passou a sustentar a família miseravelmente, ganhando o equivalente a 36 reais por uma jornada de doze horas carregando sacos de cimento. Os filhos passavam o dia no apartamento, sem nada para fazer.

Sem vislumbrar melhor opção, Abdullah pagou traficantes para chegar à Europa com sua família. O resto da história é conhecido. O bote inflável virou, e Rihanna, Ghalib, então com 4 anos, e Aylan se afogaram enquanto Abdullah tentava em vão mantê-los na superfície.

Abdullah hoje vive em Erbil, a capital do Curdistão iraquiano. Foi levado para lá por curdos abastados que viram uma oportunidade de usá-lo politicamente. A última notícia que se tem dele é que chorou ao ver uma charge de extremo mau gosto sobre seu filho publicada pela revista satírica Charlie Hebdo, cuja redação sofreu um atentado terrorista em janeiro do ano passado em Paris.

Fatima, uma irmã de Abdullah que emigrou para o Canadá em 1992, dispôs-se a patrocinar o asilo de um de seus irmãos, Mohammed, da cunhada e dos sobrinhos. O Canadá exigia uma prova de que eles eram refugiados, mas a Turquia se recusa a conceder esse status aos sírios. Mohammed fugiu para a Alemanha. Em dezembro de 2015, sua mulher, Ghousoun, e os filhos ainda aguardavam na Turquia pela autorização do governo alemão para se juntar a ele.

Um dos primos de Aylan, Yasser, conseguiu chegar sozinho à Alemanha, onde se diz feliz com a perspectiva de vida, apesar da saudade que sente da mãe, que permanece na Síria. Ele tem uma namorada alemã e sonha em abrir uma barbearia — como bom Kurdi que é.


Por Diogo Schelp / VEJA

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