sexta-feira, 20 de maio de 2016

Após um dar voz de prisão no outro, magistrado e policial discutem por 12 horas


Durante discussão por causa de um descarte de galhos num terreno baldio de Curitiba, um policial civil afastado deu voz de prisão a um desembargador de Justiça, que respondeu devolvendo a voz de prisão ao policial. O caso, ocorrido no último sábado (14), acabou na delegacia sem que nenhum dos dois fosse preso.

A confusão começou quando o desembargador Luis César de Paula Espíndola, 60, do Tribunal de Justiça do Paraná, procurava uma área para o descarte -foi feita poda de árvores na casa de seu pai. Acompanhado de um caminhão fretado, o desembargador parou sua caminhonete próximo a um terreno abandonado na vila Domitila, na região central de Curitiba.

A área, pertencente à União, é disputada na Justiça por moradores, e ações de reintegração de posse são comuns no local.

Após estacionar e antes mesmo de jogar o material no terreno, Espíndola foi acusado por moradores de estar fazendo descarte irregular no local. Eles alegam que o magistrado afirmou que deixaria os galhos onde bem entendesse, pois quem mandava ali era ele.

Ao decidir registrar com o celular a discussão, a moradora Ana Paula Bandeira Bergmann diz ter sido agredida pelo desembargador com um soco no rosto, segundo informou seu advogado, Heitor Fabreti Amante. Espíndola nega a agressão.

O policial civil afastado Antonio Carlos Polera, 54, que mora no bairro e estava presente no local na hora da confusão, pegou uma arma e deu voz de prisão ao desembargador. Espíndola se identificou então como magistrado e devolveu a voz de prisão, dizendo-se ameaçado.

Segundo o advogado Amante, que também defende Polera, o policial civil está afastado da corporação por lesão e ainda tinha a posse da arma naquele dia porque o pedido para que devolvesse o revólver ainda não tinha sido homologado. Amante diz que seu cliente foi ofendido pelo desembargador, que afirmou que Polera não tinha “cara de policial”, mas “de bandido”.

Na confusão, o policial afastado retirou a chave da caminhonete do magistrado, impedindo-o de deixar o local. O vídeo da discussão mostra Espíndola dizendo: “Ele não pode me prender. Eu sou desembargador”.

O magistrado disse que estava procurando um terreno para descartar os galhos por recomendação da Prefeitura de Curitiba e que foi agredido pela moradora e ameaçado com a arma pelo policial afastado. Por isso, afirma ter chamado a polícia.

No boletim de ocorrência, a polícia registrou que, “como ambos alegaram ter dado voz de prisão um ao outro, foi acionada viatura composta por investigadores da Polícia Civil”. Os envolvidos foram levados para a delegacia. A confusão durou do meio-dia do sábado à meia-noite, segundo o advogado dos moradores.

‘AZAR’

O desembargador diz ter “dado azar” de ter escolhido o local para o descarte, porque os moradores da região “estão para ser despejados”.

A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso. O CNJ (Conselho Nacional de Justiça) também abriu um procedimento para apurar os fatos. O desembargador tem 15 dias para apresentar esclarecimentos ao órgão.

Ele estava afastado do Tribunal de Justiça desde o início deste mês. Espíndola afirma ter tirado em 2 de maio uma licença de 20 dias para poder cuidar do pai, de 92 anos, que estava internado e passara por uma cirurgia. Na quinta-feira (19), o magistrado prorrogou a licença por mais dez dias.



Folha

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